“...mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas”.
C.Lispector
Pura e simplesmente a vontade de registrar qualquer coisa... ou coisa alguma. Está viciada em escrever artigos, ensaios, resenhas, monografias. Deixou-se impregnar por jargões e vírgulas acadêmicas. Mas hoje não quer textos. Se ousasse, pintaria quadros.
Alguns traços que conseguissem expressar um pedaço da emoção que habita em seu corpo. Corpo. Gosta de tocar emoções, quando nela se instalam quimicamente. Raiva estomacal, ansiedade alimentarmente compulsiva, nervosismo laxante, paixão condensada no ventre, tristeza líquida e fluida... Seu corpo a traduz inteira, de uma forma que nunca consegue apreender nestas poucas linhas.
Não procura descrever... Às vezes é como se nem quisesse escrever... Mas acontece que, na vã tentativa de eternizar um nada, surgem estas letras. Certas palavras como estas, por exemplo, não mostram suas angústias e ansiedades por uma profunda transformação social. Nada falam de seus amores e borboletas. Não contam sua história e não há sequer rumores literários ou uma suave melodia por trás.
E então? É fluxo, algo que toma seu corpo e inebria seus sentidos. Nem sabe. Às vezes, não fazê-lo dói. Biologicamente, o não escrever é como prisão de ventre. Parece grosseira a analogia, e realmente o é. Estas linhas, tal como a merda expulsa, são resultado de uma ação purgante – o ato de não deter o fluxo. Não são belas nem agradáveis, apenas aliviam.

2 Comments:
At 2/6/05 2:06 PM,
Anonymous said…
Mais uma vez acometida por essa ânsia insistente. Eis que um dia quis segurá-las. Não me pergunte o porquê. O corpo respondeu. De forma violenta. Quis acusar-me de covarde. Acho que tinha razão. Esse vômito é relaxante. É prazeroso. Mesmo involuntario. Saudações sensoriais. Diego.
At 27/9/06 11:00 AM,
Anonymous said…
Belos textos, belo estilo próprio! Linhas pulsantes e cheias de uma energia trágica...
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